8 de set. de 2010

Especial: Zé do Caixão (parte 1 de 2)


Minha primeira resenha para o Vai Assistindo, foi de um filme nacional chamado Mangue Negro (confira aqui), porém é impossível falar sobre terror nacional sem mencionar o maior ícone do terror brasileiro, o Zé do Caixão. Como eu já havia me prometido um tempo atrás (e também já tem gente cobrando) resolvi fazer uma postagem especial em duas partes.
Sendo que a primeira delas falará um pouco sobre a carreira do nosso ilustre cineasta, e também sobre o primeiro filme do personagem e conseqüentemente primeira parte da trilogia Zé do Caixão: À Meia Noite Levarei Sua Alma.
Na segunda parte do especial, estarei então falando sobre as partes 2 e 3 da sua trilogia.



José Mojica Marins nasceu em São Paulo, em 13 março de 1936. Desde cedo Mojica desenvolveu apreço pelo cinema, sendo que aos 12 anos de idade ganhou sua primeira câmera. Desde então não parou de capturar suas idéias e transformá-las em filmes.
O personagem Zé do Caixão nasceu de um pesadelo de Mojica, segundo suas palavras:


"Certa noite, ao chegar em casa bem cansado, fui jantar. Em seguida, estava meio sonolento, entre dormindo e acordado, e foi aí que tudo aconteceu: vi num sonho um vulto me arrastando para um cemitério. Logo ele me deixou em frente a uma lápide, lá havia duas datas, a do meu nascimento e a da minha morte. As pessoas em casa ficaram bastante assustadas, chamaram até um pai-de-santo por achar que eu estava com o diabo no corpo. Acordei aos berros, e naquele momento decidi que faria um filme diferente de tudo que já havia realizado. Estava nascendo naquele momento o personagem que se tornaria uma lenda: Zé do Caixão. O personagem começava a tomar forma na minha mente e na minha vida. O cemitério me deu o nome; completavam a indumentária do Zé a capa preta da macumba e a cartola, que era o símbolo de uma marca de cigarros clássicos. Ele seria um agente funerário."


Em 1964 o personagem Zé do Caixão tem sua estréia nos cinemas no filme À Meia Noite Levarei Sua Alma. Interpretado pelo próprio Mojica, criação e criador passaram a se confundir e compartilhar da mesma identidade.
O filme se tornou um grande sucesso comercial projetando a carreira de Mojica e por conseqüência também a carreira do personagem Zé do Caixão.


Apesar do sucesso comercial de seus primeiros filmes, infelizmente o personagem nunca teve o reconhecimento devido no nosso país.
Embora a figura Zé do Caixão seja muito conhecida, poucos assistiram algum de seus filmes, sendo que a grande maioria tem a imagem do Zé do Caixão como um personagem cômico graças a sua participação como apresentador nos programas de filmes de terror do canal Bandeirantes (onde rogava pragas aos telespectadores).
Curiosamente no exterior Zé do Caixão (onde é conhecido como Coffin Joe) ganhou o status de cult, sendo ovacionado por um público bem maior que o de seu país de origem.




Título Original: À Meia-Noite Levarei Sua Alma
País de Origem: Brasil
Duração: 81 minutos
Ano de Lançamento: 1964
Direção: José Mojica Marins
Roteiro: José Mojica Marins, Magda Mei e Waldomiro França


Elenco: José Mojica Marins (Zé do Caixão), Magda Mei (Terezinha), Nivaldo
de Lima (Antônio), Ilídio Martins (Dr. Rodolfo), Valéria Vasquez (Lenita)
Arildo Lima, Vânia Rangel, Robinson Aielo, Avelino Marins, Laurindo Laurelli(dublador da voz do Zé do Caixão)[+]


Sinopse: Zé do Caixão é um coveiro que prestas seus serviços para o cemitério de uma pequena cidade interiorana, cruel e sádico é odiado e temido por todos.
Obcecado em dar continuidade a sua linhagem sanguínea, ele comete as maiores afrontas contra os homens, contra Deus e até contra Satanás. Desafiando e escarnecendo de tudo e todos, não medirá conseqüências para gerar seu filho com a mulher ideal, passando por cima de quem estiver em seu caminho.
Mas todos, sem exceção mais cedo ou mais tarde acabam pagando pelos seus atos...


Vai Lendo!


"O que é a vida?
É o princípio da morte.
O que é a morte?
É o fim da vida.
O que é a existência?
É a continuidade do sangue.
O que é o sangue?
É a razão da existência."


Somos apresentados a Zé do Caixão logo no início de nosso filme. Nessa apresentação o personagem expõe as suas respostas para essas questões que parafraseei acima. Esse primeiro contato com Zé do Caixão, através desse questionamento, já nos mostra as reais motivações do personagem e sua obsessão em gerar um filho, para assim garantir a continuidade de sua linhagem.


Após essa apresentação do nosso anti-herói, temos ainda uma pequena introdução. Uma bruxa nos alerta para não assistirmos o filme que iniciará, para que abandonemos a nossa poltrona e não demonstremos uma coragem que não possuímos. Logicamente uma divertida brincadeira para deixar o telespectador mais curioso.
Logo após esses dois pequenos prólogos o filme começa de verdade.


É um pouco difícil falar sobre À Meia-Noite Levarei Sua Alma sem entregar muito das genialidades desse filme. Embora para os padrões atuais possa ser considerado um filme mais “light”, é necessário que nos lembremos de duas coisas: Primeiro esse filme foi produzido em 1964 para um público muito, mas muito mais conservador que o de hoje, em uma época que a moral e os bons costumes eram quase que lei, em um país de maioria católica completamente apegado aos dogmas cristãos. E segundo por se tratar de uma produção completamente independente, de baixo custo e com um elenco quase que em sua totalidade amador.
Voltando um pouco no tempo, e se colocando no lugar daquele público de mais de 40 anos atrás é que dá pra entender o quanto esse filme foi provocativo e revolucionário para o cinema nacional.


Certo, mas sobre o que fala À Meia-Noite Levarei Sua Alma?
Se tratar basicamente da sinopse que fiz logo acima, de um homem obcecado em gerar um descendente e que não mede conseqüências para isso. Entrarei em mais detalhes, mas realmente quem tem curiosidade em assistir aconselho que pare de ler o texto por aqui.


Sobre o enredo do filme (contém spoilers)


O coveiro Zé do Caixão como já dito anteriormente deseja gerar seu descendente, o problema é que sua esposa Lenita é estéril, logo ele precisa encontrar outra mulher que sirva para seu propósito.
Ele encontra então em Terezinha como seu novo objeto de obsessão, só que a moça é noiva de seu melhor (e único) amigo, Antônio.
Mesmo sendo Antônio o único habitante da cidade que tolera Zé, ele ainda assim assedia Terezinha, demonstrando que vive em um mundo ditado única e exclusivamente pelas suas regras.




A moça rejeita Zé, então para ele só resta uma alternativa: se livrar das duas pessoas que estão em seu caminho para ficar com Terezinha, sua esposa Lenita e seu amigo Antônio.

A primeira vítima é Lenita, que para simular um acidente Zé a amarra e coloca sobre ela uma aranha venenosa. Em seguida é a vez de Antônio, que é afogado em sua banheira.


Mesmo agora sem os dois obstáculos, Terezinha continua rejeitando Zé. Só resta então a ele possuir a moça a força, e é o que faz.
Terezinha humilhada avisa a Zé que irá tirar sua própria vida, mas para que ele se prepare pois voltará para buscar sua alma à meia-noite (esta aí o porque do título do filme).




Momentos provocativos (contém spoilers)



Além de ser um personagem que não hesita em cobiçar a mulher do próximo, matar e violentar, Zé do Caixão logo em sua primeira cena demonstra toda sua falta de caráter e deboche. No enterro de uma pessoa, ele presta seus sentimentos a família do falecido, apenas para em seguida na companhia da esposa escarnecer dizendo o quão faminto fica em enterros e o que deveria cobrar em dobro por ter que aguentar choradeiras.




Uma das maiores provocações de seu filme é no momento em que uma procissão na Sexta-feira Santa passa por sua janela, e Zé do Caixão se posta a comer um pedaço de pernil e oferecer aos fiéis e a gargalhar, em seguida ele obriga um pobre rapaz a comer um pedaço da carne. É como eu disse antes, pode parecer algo ingênuo para os padrões atuais, mas deve-se colocar no lugar da conservadora sociedade dos anos 60, se mesmo hoje como tradição entre os adeptos do catolicismo não se come carne no chamado dia santo, então dá para imaginar a repercussão que tal cena deve ter causado na época.



O diálogo que antecede está cena também é algo que merece ser transcrito aqui:
“-Ué cadê a carne?
-Hoje não tem, você esqueceu que é Sexta-feira Santa?
-Que me importa que seja Sexta-feira dos santos ou do demônio!?(...)
-Hoje eu como carne, nem que seja carne de gente!
-Cuidado Zé o diabo tenta.
-Se eu o encontrar, vou convida-lo para jantar.”


O filme segue, e durante toda sua extensão provocações diversas (essas que citei estão apenas nos dez minutos iniciais do filme) as crenças do “cidadão de bem” são feitas. Mas provocações por si só não são o suficientes para tornar algo revolucionário.
À Meia-Noite Levarei Sua Alma se destaca também pelo pioneirismo em se fazer cinema de terror no Brasil, por ter um enredo simples porém eficiente, uma boa direção e ser um filme de baixíssimo orçamento, mas que conseguiu feitos até então inéditos no cinema nacional.




Nota (0-10):
9,5 (um verdadeiro marco no cinema nacional, deve ser visto por todos aqueles que se julgam apreciadores de filmes de terror, um filme ousado e bem a frente de seu tempo)



Trailer:




Curiosidades:


-José Mojica Marins resolveu interpretar o Zé do Caixão porque não encontrou ninguém que se dispusesse a encarnar e se submeter a caracterização do personagem.



-O elenco do filme foi todo composto por atores da escola de teatro do Mojica, sendo que a única atriz profissional foi Magda Mei (interprete de Terezinha). Magda Mei ainda colaborou na elaboração do roteiro de À Meia-Noite Levarei Sua Alma.


-Embora Zé do Caixão tenha sido interpretado por Mojica, a sua voz foi dublada pelo ator Laurindo Laurelli.O único filme onde Zé do Caixão não foi dublado por outro ator foi o recente a Encarnação do Demônio.


-Oficialmente Zé do Caixão é um personagem que faz parte de uma trilogia, onde é retratado como um ser-humano normal e não uma entidade sobrenatural. Embora o personagem apareça em outros filmes de Mojica como tal, tais filmes não fazem parte da cronologia da trilogia e possuem estórias independentes.


Por hoje é só amiguinhos, aguardem a próxima e derradeira parte do nosso especial. [Zé do Caixão mode on] Que seus olhos explodam e seus dedos caiam se ler essa postagem e não fizer um comentário! [Zé do Caixão mode off]

6 comentários:

  1. Não sabia que o Zê do Caixão era tão "venerado" la fora, fiz uma perquisa no google por "Coffin Joe", e o resultado é de se espantar, ele é muito adorado, dvds, edições especiais,box,trilogias, ect.... muito bom o Zê do Caixão é um icone do terror brasileiro,pela que sua imagem (na minha opinião) foi estragada, o Zê do caixão se tornou mais um personagem humoristico do que assustador... graças as produtoras,emissoras de tv que não sabem der seu devido valor! Tem um filme do ZÊ atual não tem ? ou ele ainda esta em produção? vlw VA :D

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  2. @ Sr. Sem Papo,
    Realmente é de se espantar que o Zé do Caixão faz mais sucesso lá fora do que aqui. É impressionante mesmo que ele tenha mais material lançado nos EUA e na Europa do que seu país de origem, tem até um box em DVD em formato de um caixão (que ia ficar muito legal na minha estante se eu tivesse dinheiro para importar um).

    Realmente sua imagem foi estragada, e ele transformado em um personagem cômico. Mas o homem precisa pagar as contas então precisa se sujeitar a isso...

    Seu último trabalho foi Encarnação do Demônio (2008), que faz parte da trilogia Zé do Caixão e na qual estará presente na segunda parte do especial.

    Obrigado pela visita e comentário.

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  3. Muito bom o post, ansioso pela segunda parte.

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  4. João, te agradeço o comentário. É dificil o começo de um blog, sem ninguém comentando, mas agradeço MESMO a tua colaboração, me deixou super feliz e animada a continuar!

    A escolha pra mim era meio óbvia, não existe coisa da qual eu entenda melhor do que animação. Pensei em falar de cinema, sitcoms, política, mas desenho animado sempre foi e sempre será minha paixão. Não que eu também não goste de animes (e gosto "bagarai"), mas é chato ver blogs de animação resumidos apenas a eles.

    Quanto ao post: porra, eu sempre admirei o Zé do Caixão, por mais que nunca tenha visto nenhum filme dele. Felizmente, o cara recebeu os louros que merce, mesmo que fora do seu país.

    E eu morria de medo das pragas dele! Não trocava de canal de jeito nenhum! xD

    Bewm que o Cine Trash poderia ter exibido algum filme dele na época em que ele era o apresentador...

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  5. @Patrícia Loupee

    No início é meio difícil mesmo, eu particularmente dei sorte porque comecei a escrever aqui quando já tinha um público consolidado.
    Mas vai persistindo que uma hora vai ter bastante gente lá.

    E é verdade, o Cine Trash poderia sim ter exibido os filmes dele, mas o potencial do Zé do Caixão nunca foi aproveitado, mas pelo menos em algum lugar ele é reconhecido o que já super legal.

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